Política
“O Amazonas não esqueceu”: Wilson Lima amarga derrota nas urnas e pode perder foro privilegiado
Ex-governador termina a disputa pelo Senado em quarto lugar, enquanto o desgaste da pandemia volta ao centro do debate político e o futuro de processos judiciais ganha destaque.
Amazonas — A derrota de Wilson Lima (União Brasil) na disputa por uma das duas vagas ao Senado Federal marca um novo capítulo na política amazonense. Com 76% das urnas apuradas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), neste domingo (4), o ex-governador aparece matematicamente derrotado, ocupando a quarta colocação, com 10,96% dos votos válidos, o equivalente a 320.931 votos.
O resultado representa um duro revés para o político, que governou o Amazonas por dois mandatos consecutivos, desde 2019. Durante a campanha, o passado de sua gestão, especialmente os episódios envolvendo a crise sanitária da covid-19, voltou a ganhar força no discurso dos adversários, sob o lema: “O Amazonas não esqueceu”.
Além do impacto eleitoral, a derrota também coloca em evidência o futuro jurídico de Wilson Lima. Com o encerramento de seu mandato de governador, previsto para 31 de dezembro de 2026, ele poderá perder a prerrogativa de foro em processos relacionados a atos praticados durante sua gestão, conforme as regras constitucionais e a jurisprudência aplicável.
Pandemia volta a assombrar o cenário político
O colapso do sistema de saúde do Amazonas, em janeiro de 2021, durante a pandemia de covid-19, foi um dos episódios mais marcantes da administração de Wilson Lima.
A falta de oxigênio medicinal nos hospitais de Manaus provocou uma crise humanitária de repercussão nacional e internacional. O episódio foi frequentemente lembrado durante a campanha eleitoral, tornando-se um dos principais pontos de crítica à gestão do ex-governador.
Mesmo com a apresentação de obras, programas sociais e investimentos realizados ao longo dos anos seguintes, o período da pandemia permaneceu como um tema sensível no debate político estadual.
Para os adversários, a crise sanitária representava um passivo político que não poderia ser ignorado pelo eleitorado. A derrota de Wilson Lima reacende o debate sobre os efeitos de sua administração e o peso da memória política dos amazonenses.
Operação Sangria e o futuro dos processos judiciais
A situação jurídica do ex-governador também ganha destaque após o resultado eleitoral.
A Operação Sangria, deflagrada pela Polícia Federal, investigou suspeitas de irregularidades na compra emergencial de respiradores pulmonares durante a pandemia, incluindo uma negociação envolvendo uma empresa que comercializava vinhos.
Em setembro de 2021, a Corte Especial do Superior Tribunal de Justiça (STJ) recebeu parte da denúncia apresentada pelo Ministério Público Federal (MPF), tornando Wilson Lima e outros investigados réus pelas acusações aceitas.
Posteriormente, em 2025, o STJ rejeitou, por maioria, a acusação de peculato relacionada aos custos de transporte aéreo dos equipamentos, conforme o entendimento adotado pelo colegiado naquele julgamento.
As demais imputações e os recursos relacionados à investigação possuem tramitação própria, e o resultado de cada uma delas depende das decisões judiciais correspondentes.
Fim do mandato pode mudar o foro de Wilson Lima
Com o encerramento do mandato de governador, Wilson Lima poderá deixar de contar com o foro por prerrogativa de função perante o STJ nos processos em que essa competência estiver vinculada exclusivamente ao exercício do cargo.
A mudança, entretanto, não significa condenação ou transferência automática de todos os processos para a Justiça Federal no Amazonas. A definição do juízo competente depende da natureza das acusações, da relação dos fatos com o exercício do cargo e das regras jurisprudenciais aplicáveis.
O cenário abre uma nova etapa para o ex-governador, que, após a derrota nas urnas, deixa de ter a perspectiva de um novo mandato eletivo imediato e passa a enfrentar um período de incertezas políticas e jurídicas.
Enquanto a apuração eleitoral caminha para a conclusão, o resultado impõe uma derrota expressiva a Wilson Lima e reacende uma discussão que marcou profundamente a história recente do Amazonas: as consequências políticas e judiciais da crise sanitária de 2021.
